Sunday, March 22, 2009

É como se nunca estivéssemos em nós mesmos e de vez em quando nos encontrássemos. E o encontro, quase sempre, é catastrófico.

"Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?" Nietzsche

Saturday, July 01, 2006

estar nu e começar

A decisão foi tomada. A pressão consegue ser um grande bloqueio para minha mente. Talvez eu não seja madura o suficiente, talvez fosse minha mera irresponsabilidade que não pode ser desculpada pelo fato de ser muito nova. O que fiz, ou melhor, deixei de fazer, foi um erro. O bom de se crescer do jeito mais difícil é que a lição nunca mais é desaprendida, ao contrário dos que só seguem ordens e não são capazes de compreender e sentir o porquê delas.

VERSO 6
Paul van Ostaijen

Eu não posso colecionar selos
Eu não posso colecionar fotos de mulheres
Eu não posso colecionar namoros
nem sabedoria
eu já não posso nada mais
eu já não posso nada mais
Porque não apago a luz
e não vou pra cama
Eu quero provar
estar nu
pelado quem sabe sim púrpura gelada
e palidez
Não é assim o próprio princípio principiante
Eu não quero saber nada
eu não quero perguntar
porque
eu não me tornei um colecionador de selos
Eu começarei por dar meu fracasso
Eu começarei por dar minha falência
Eu me darei um pobre despedaço de terra
uma terra pisoteada
uma terra de urzes
uma cidade ocupada
Eu quero estar nu
e começar
(tradução de Philippe Humblé e Walter Costa)

Thursday, June 29, 2006

leaking fuel

Tempo não se perde, ganha-se algo subjetivo que pode ser tanto bom quanto mau.
Uma coisa é certa, muitos deixam vazar a gasolina de seus tanques no percurso dos anos de modo que, algum tempo depois do início, encontram-se secos, estéreis, esgotados. O sentimentalismo é trocado pelo bom senso e a ânsia de mudanças por uma resignação de silenciosos derrotados.
Todo o seu ímpeto fica marcado no asfalto quente da vida. Não foi gasto, mas sim jogado fora, gota a gota, por falta de cuidados ou por puro desconhecimento do assunto.

Sunday, June 18, 2006

a figueira

"...I saw my life branching out before me like the green fig tree in the story.
From the tip of every branch, like a fat purple fig, a wonderful future beckoned and winked. One fig was a husband and a happy home and children, and another fig was a famous poet and another fig was a brilliant professor, and another fig was Ee Gee, the amazing editor, and another fig was Europe and Africa and South America, and another fig was Constantin and Socrates and Attila and a pack of other lovers with queer names and offbeat professions, and another fig was an Olympic lady crew champion, and beyond and above these figs were many more figs I couldn't quite make out.
I saw myself sitting in the crotch of this fig tree, starving to death, just because I couldn't make up my mind which of the figs I would choose. I wanted each and every one of them, but choosing one meant losing all the rest, and, as I sat there, unable to decide, the figs began to wrinkle and go black, and, one by one, they plopped to the ground at my feet." Sylvia Plath - The Bell Jar


Quem nunca teve que escolher um, e só um futuro, enquanto via todas as outras possibilidades de vida apodrecerem e se tornarem inatingíveis? Todo mundo passa por isso, principalmente nessa transição colégio-faculdade, e conforme os anos passam, mais figos apodrecem e pior fica essa sensação. Na faculdade finalmente os estudos começam a ser específicos e as perguntas não param de pipocar na mente:
que diabos estou fazendo aqui? será que é isso mesmo que quero da vida? e pensar que ainda tenho um mestrado e doutorado pela frente se quiser algum possível reconhecimento...
É a maldita responsabilidade que o peso dos anos impõe. O caminho está cheio de bifurcações e não sei se estou pronta pra tomar uma direção sem volta.
Sem volta sim, não me venham com a conversa de que somos jovens e temos tempo,
é mentira.

Monday, May 29, 2006

só porque é triste o fim

Tudo pra mim foi sempre claro: não! um belo dia tudo isso vai acabar, eu estarei solteira de novo, triste, mas é a vida, e que seja eterno enquanto dure.
Mas será que na prática, no auge, a gente ainda pensa assim? Será que por um momento não passa pela cabeça o pensamento de uma união estável, filhos, netos, de envelhecer junto ...enfim, toda aquela coisa piegas estilo romance sabrina que mal temos coragem de confessar ainda que para as pessoas mais chegadas?
Ao mesmo tempo em que o amor é banalizado, com gente distribuindo "eu te amo" por tudo quanto é lado sem realmente saber direito o que isso siginifica (e quem sabe?) , nós, quando finalmente parecemos sentir algo de verdadeiro temos muito, muito medo ou até vergonha de dizer tais palavras. É o momento em que ficamos desarmados, nós que normalmente seguramos pedras. E quem quer ficar vulnerável?

Tuesday, April 25, 2006

jeová

Segunda feira passada estava esperando o ônibus quando passa uma mulher por mim, vem, vai, não decide onde fica. Pensei que estivesse impaciente andando pra lá e pra cá até o ônibus chegar. Então, do nada, ela pára e vem conversar comigo... fala sobre o amor, que Jesus tinha amor e que é dele que carecemos hoje em dia. Deu um papelzinho e me fez prometer que leria e que não jogaria fora. Tudo bem, dito e feito.
Primeiro eu achei que ela pediria dinheiro em troca do papel (pra variar né), mas não. Depois pensei por que de tantos outros transeuntes ela foi escolher justo eu pra falar de Jesus. Será que cheiro tanto a ateísmo? Outra coisa que me chamou a atenção foi o título do papelzinho ser: "Quem é JESUS CRISTO?" e não quem FOI. Há muita coisa embutida nesse verbo no presente, não? E sim, era testemunha de jeová, eu nem conheço as diferenças que existem com o catolicismo.
Li no horóscopo que me aproximo de meu inferno astral. Que diabo será que é isso?! Ultimamente tô sem nenhuma paciência, sem saco e chata. Se isso é só se aproximar, imagina quando eu efetivamente chegar a ele...(fazendo sinal da cruz).

Sunday, April 23, 2006

o livro por vir

Hm, uma coisa irrita sim... é o consumismo chegar até a literatura. Pessoas que lêem clássicos de uma só vez e num curto espaço de tempo achando ser suficiente, e devoram mais e mais livros, sem realmente aproveitá-los o quanto deveriam. Depois vangloriam-se de tê-los lido citando e exaltando o nome de seus autores como se fossem semi-deuses e coisa do tipo, esquecendo que o que realmente vale é a obra, sua idéia, desvinculada da imagem de seu autor. Claro que a vida de vários autores ajuda muito na compreensão de seus textos, mas não é disso que o que digo se trata.
Bem como há muitos escritores na atualidade que não oferecem nada além de uma trama que te prende do começo ao fim, mas são tão ocas, tão vazias de conteúdo que não são capazes de inspirar alguma reflexão posterior, sendo meras distrações descartáveis que nos fazem lembrar o quanto nossas próprias vidas podem ser descartáveis e vazias também. O mais triste disso tudo é saber que estou aí no meio, incapaz de me dedicar mais do que um curto período de tempo à leitura. Além de ser poligâmica e quase nunca terminar um livro sem ter começado a ler outro e assim atrapalhado a leitura de ambos.